Nascido em Sambizanga, criado anos mais tarde na Ilha de Luanda e a morar hoje em dia em Portugal, Gilmário Vemba, 38 anos, é o homem que quer ser conhecido como "o comediante da língua portuguesa". A sua trajetória começou pouco tempo depois de se mudar para a Ilha, depois da sua casa de família ter sido assaltada, e a sua carreira fala por si. Conhecido por todos em Angola e em Portugal, Gilmário Vemba fez parte do grupo de enorme sucesso no país africano Os Tuneza, tendo ficado por lá durante 17 anos.
No entanto, tudo tem um fim, e a vontade de Gilmário de se posicionar politicamente no seu país fez com que tivesse de abandonar o grupo, e foi Portugal que lhe deu as ferramentas certas para conseguir continuar a crescer, desta vez com uma carreira a solo. Depois dos palcos, o humorista começou a entrar no mundo da televisão e da rádio, e foi conquistando cada vez mais o seu lugar na comédia portuguesa. Agora, depois de vários anos a fazer do humor carreira, Gilmário Vemba pisa a maior sala de espetáculos do País para o penúltimo espetáculo da sua mais recente tour, "Temas".
Em conversa com a MAGG, Gilmário conta a história da sua vida, sem filtros nem desculpas. A insegurança que sentiu enquanto vivia em Sambizanga com a Guerra Civil que se dava em Luanda em 1992, a mudança de vida que o fez entrar nos Tuneza, o assalto seguido de rapto em que estavam presentes duas filhas e todos os projetos que guarda com mais carinho. Pai de quatro filhos, irmão de 15, marido e filho, Gilmário Vemba só quer uma coisa com a sua carreira: fazer as pessoas dar umas boas gargalhadas.
A guerra, as brincadeiras e os valores que ainda hoje permanecem
Conte-nos sobre a criança Gilmário Vemba. Quais são as memórias da sua infância que guarda com mais carinho?
Acho que guardo, acima de tudo, a memória da inocência. A parte de não saber, de não sentir a dor que era viver no tempo em que eu vivi. Tenho boas memórias de infância, de brincar constantemente com os meus amigos, brincadeiras que eu hoje em dia sei que eram bastante perigosas, mas que na altura pareciam muito divertidas, então são essas as memórias que eu guardo do meu tempo. Hoje enquanto mais velho olho para trás e percebo o momento que se vivia em Angola e aquilo que eram as dificuldades dos meus pais, mas naquela altura não sentia absolutamente nada disso. Era viver, era correr, era jogar à bola das 12 horas às 17 horas e por aí fora. Lembro-me que atirávamos uma bala para o meio do fogo e depois corríamos todos, um para cada lado. Aquilo quando explodia fazia um barulho do caraças e nenhum de nós tinha coragem de voltar, até porque os mais velhos saíam de casa para ver o que se passava. Tínhamos uma grande capacidade de só pensar em porcaria e brincar com coisas que nos podiam magoar muito, mas foi uma infância muito divertida, apesar dos perigos. Lembro-me de ter sido uma criança bastante feliz, brinquei muito na casa dos meus avós e das minhas tias. O meu corpo fala por mim, estou meio partido.
Como é que caracteriza a sua relação com os seus pais e, inicialmente, com os seus cinco irmãos?
Sim, primeiro criei uma ligação com o meu irmão mais velho, Nélson, e depois o resto veio aparecendo ao longo do caminho. Mas lembro-me de termos uma convivência muito fixe, a minha mãe era obviamente o nosso volante. Nós crescemos naquela época em que os dois pilares da educação estavam muito bem formados, a mãe que dizia o que fazer e como fazer e o pai era a ameaça constante, a surra premium, mas tínhamos uma relação super saudável. Com os meus irmãos era aquela relação de crianças do dá e foge. Eu e o meu irmão mais velho lutámos muito, até agora continuamos a ser pessoas que poucas vezes convergem nas ideias, pensamos completamente diferentes. Mas sempre foi aquela coisa em que o meu irmão mais velho era o nosso protetor, no bairro a única pessoa que nos podia tocar era ele, temos mesmo uma relação super saudável. Depois a minha irmã, mal ela aprendeu a falar como deve ser, foi quem começou a cuidar de nós. Com 9 anos cozinhava, tratava das compras, de tudo.
Há pouco falou sobre brincar na casa dos avós, e sei que eles foram muito importantes para si. Que tipo de valores e ensinamentos é que lhe incutiram?
Cada um deles passou-me valores diferentes mas que se encaixam, mas principalmente o valor do conhecimento. Todos eles falavam muito na importância do estudo, de adquirir conhecimento porque só assim é que íamos conseguir, de alguma forma, vencer na vida. Lembro-me de os meus avós lamentarem muito o facto de não terem tido oportunidade de estudar e de se formar, eles viveram na época colonial e o conhecimento era limitado. Acabou por se criar um hábito que era do género “esquece, só podemos ir até aqui e ponto final”, então, com as oportunidades do meu tempo, eles sempre me incutiram isso.
Também me passaram muito o valor do respeito, independentemente das condições sociais, origens ou crer religioso. O meu avô dizia sempre: “Quando vais por uma rua cumprimenta todo o mundo, porque podes voltar a passar por lá e precisar de ajuda. Se passares com arrogância ninguém te vai ajudar”. A minha avó também nos ensinou a ler em casa, deu-nos o primeiro contacto com os livros e explicou-nos a importância de aprender as palavras, de como se escrevem, como se dizem, porque as pessoas julgam a tua inteligência a partir daí.
Também o valor da justiça tem bastante peso na sua vida.
Sim, esse foi mais a minha mãe. Ela dizia sempre que temos de ser amigos da razão e não da pessoa. Às vezes a pessoa está errada e, ainda que seja nosso amigo, nosso irmão, nosso pai, temos de saber dizer “eu estou aqui contigo, mas tu estás errado”. O valor do que é justo ou não às vezes não é igual ao valor da igualdade. Se calhar há alguém que precisa de mais e se dermos por igual provavelmente aquele que já tem muito vai continuar a ter muito e quem não tem nada vai continuar a não ter nada, então é tentar sempre criar uma base justa para todos, não negligenciando ninguém.
Ainda hoje continuo a utilizar todos esses valores, para me lembrar de que não sou mais nem menos do que ninguém. No final do dia somos todos feitos de carne e osso, vamos todos parar ao mesmo sítio, podemos pensar diferente, mas isso não nos faz inimigos.Ficou-lhe alguma memória dos tempos dos confrontos da Guerra Civil em Luanda em 1992?
Sim, mas só consegui senti-la aos 7 anos. Foi o primeiro confronto em Luanda, não tenho a certeza do tempo que durou, era uma criança, mas lembro-me da sensação de incerteza, do amanhã ser uma coisa completamente distante. Faltou comida, via os meus pais a debater se deviam ou não fugir, as pessoas não sabiam que bandeira levantar quando saíssem à rua, se MPLA [Movimento Popular de Libertação de Angola], se UNITA [União Nacional para a Independência Total de Angola]. Os tiros são os mesmos dos dois lados, bala é bala, e esse período de incerteza em que as pessoas não sabiam o que iam comer porque os mercados fecharam, as lojas fecharam, era muito mau. Lembro-me de comermos coisas que sabiam mal, sabiam mesmo mesmo mal, lembro-me da minha mãe fazer um funge que sabia amargo, mas era a única coisa que tínhamos para comer. Não desejo a ninguém, foi algo muito mau, principalmente quando olhas para os teus pais e pensas que eles têm filhos para cuidar, filhos que não pediram para nascer e que não percebem nada de política, que têm de comer lixo e de dormir por baixo da mesa com medo de uma bomba cair dentro de casa.Mas tinha noção do que estava a acontecer?
Quer dizer, com 7 anos nós já sabíamos da existência da guerra, era tudo o que se falava nas notícias. A guerra, os ataques. Ligavas o noticiário e passava as notícias da guerra toda, os territórios que foram recuperados, que foram ocupados, o que é que a UNITA fez e por aí fora, e depois passavam os desenhos animados, o contraste completo. Uma criança não percebe exatamente a 100% o que se estava a passar, mas percebe que há um conflito.
Esse terror acabou por chegar bem perto de si, quando a sua casa foi assaltada. Do que é que se lembra?
O ser assaltado em Sambizanga era uma coisa quase que do dia a dia. Todos os dias havia alguém que passava por isso, todos os santos dias havia uma família que tinha sido assaltada. Em 92 a população foi armada por causa da guerra e essas armas não foram recolhidas, e depois de qualquer guerra vem sempre uma crise económica ou uma crise de fome. O ser humano para sobreviver faz de tudo um pouco, e era normal para mim estar a sair da casa de um amigo e ver alguém a ser assaltado. E as pessoas que assaltavam eram pessoas conhecidas, vizinhos.Numa madrugada entraram uns dez homens, boa parte deles armados, em minha casa e levaram praticamente tudo o que os meus pais tinham conseguido comprar até àquela altura. Durante o assalto um dos assaltantes começou a bater na minha mãe, e ela tentou desarmá-lo, mas ele começou a pontapeá-la. Aí houve um momento em que todos perdemos o medo, começámos todos a gritar, lembro-me de pegar numa cadeira e gritar com um, a minha irmã o mesmo. Mas eles eram muitos, mandaram dois tiros dentro de casa e nós parámos. Foi a primeira vez que o meu pai sentiu que não ia conseguir proteger a família, mas eles acabaram por ir embora.
O seu pai acabou por decidir abandonar o bairro, certo?
Exatamente, o meu pai logo no dia seguinte foi pedir empréstimos e tudo mais para conseguir tirar-nos de lá, alugar uma casa fora do bairro, sair do seu sítio para tentar fugir à criminalidade. Aquilo durante muito tempo foi um trauma para eles, porque sempre que alguém batia à porta de noite eles ficavam com medo, era um pânico, não sabíamos se era outra vez um assalto ou se era só o vizinho a pedir açúcar.
"Demos por nós a ser o grupo que ia preencher a lacuna que existia"
E foi o facto de mudar de ares que fez com que a sua jornada na comédia começasse.
Sim, eu acabo por mudar de bairro, vou para a Ilha de Luanda, e acabo por seguir os passos do meu irmão e junto-me à companhia de teatro. É lá que eu conheço o Daniel Vilola, o Orlando Rodrigues, o Cesalty Paulo e o José Chieta, e um ano depois, na intenção de promovermos essa mesma companhia, criámos Os Tuneza para fazermos pequenos sketches humorísticos em espetáculos de música.As pessoas é que nos criaram praticamente, porque gostaram de nós e fomos convidados cada vez mais. Depois começámos a ser convidados para a televisão e para a rádio, e quando te começam a pagar já é um caminho sem volta. Também apanhámos uma boa onda. A guerra acabou em 2002 e nós começámos praticamente no mesmo ano, por isso havia um sentimento de esperança por todo o país, e a cultura acabou por ser o alimento que trouxe a mensagem de paz.
Foi uma aventura fazer parte de um grupo de comédia?
Foi. Precisámos de ir atrás do conteúdo porque de repente demos por nós a ser o grupo que ia preencher a lacuna que existia. Na altura não havia grupos de humor, tínhamos a noção básica do teatro e foi misturar esses dois pontos, e fomos fazendo o trabalho. Somos responsáveis por criar em Angola um mercado humorístico, fomos o primeiro grupo de grande sucesso que despertou a vontade e a certeza de que era possível ter uma vida com a comédia, e carrego isso com muito orgulho.
Foi nos Tuneza que eu percebi que podia vingar. Em 2004 acabei por descobrir o stand-up graças a um primo meu que veio de Portugal e me trouxe uma cassete do “Levanta-te e Ri”. Sabia que gostava de comédia, mas não tinha ainda muita noção do que era o stand-up, e começo a descobrir um mundo novo. Começo a seguir muitos artistas, Bruno Motta, Danilo Gentili, começo a ver o movimento que se está a criar e a consumir cada vez mais. A primeira vez que vim a Portugal fui atrás do que se fazia cá e acabei por encontrar conteúdos do Bruno Nogueira, Raul Solnado, “Humor na Caneca”, e tantos outros. Em 2010 fui a uma casa de discos e pedi tudo o que tinham sobre comédia e deram-me uma coletânea, conheci ali o Trevor Noah. Desde sempre que acompanhei todo este movimento da comédia e quis ficar cada vez mais mais envolvido.
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